Esta semana, não poderia falar de outra coisa senão do filme nacional mais comentado da atualidade, seja por toda a questão da pirataria, pela violência mostrada, ou pela capacidade de questionamento que ele oferece ao espectador. “Tropa de Elite” é estelado por Wagner Moura, ator que já viveu JK na minisserie global homônima e é conhecido por abraçar de corpo e alma os papéis que interpreta. Ele vive o Capitão Nascimento – um oficial do BOPE, batalhão conhecido pela integridade moral de seus componentes e por realizar operações de alto risco em favelas cariocas contra o tráfico de drogas. Na história, Nascimento decide se aposentar do Batalhão e precisa encontrar um substituto que possua todas as características necessárias para ter a “dignidade” de entrar no grupo do “Caveirão”. O diretor de “Tropa” José Padilha que dirigiu também o desconcertante documentário "Ônibus 174", parece ter virado uma espécie de referência no gênero drama e realidade no cinema brasileiro.
O filme realmente toma de assalta o público por mostrar a violência de forma explícita, tanto aquela praticada pelos traficantes, quanto pelos próprios oficiais do BOPE, ou seja, o filme não se restringe a mostrar somente o bom mocismo dos policiais. Um elemento que deve ser notado pelos mais atentos é a grande crítica do autor à nossa sociedade e também ao nosso modo de ver a polícia. Porque a corrupção existe entre os policiais, pensamos que todos eles se enquadram dentro desta prodidão. Tendemos sempre a pensar que a corrupção contamina tudo e todos que estejam ao seu redor. No filme, o BOPE é mostrado como uma facção incorruptível e cria uma contradição com o pensamento das pessoas de que “a polícia como um todo é corrupta”.
Uma cena de “Tropa de Elite” que me saltou aos olhos foi aquela em que um viciado em drogas, “filhinho de papai”, e cuja potencialidade para o tráfico era gritante, participava de uma passeata em prol da paz após o assassinato de seus colegas no morro comandado pelo traficante Baiano. Na cena, o Capitão Matias, tomado pelo espírito dos policiais que fazem parte do Bope, invade a passeata e dá uma surra no “playboy”. Aquilo tudo não passa de uma crítica de Padilha aos jovens usuários de drogas. O que o diretor quis mostrar foi a enorme capacidade que os jovens possuem em não enxergar as coisas como elas são, não perceber que grande parte da culpa de toda violência praticada pelos traficantes deve-se ao fato das pessoas consumirem drogas e darem força ao tráfico. Ora, o tráfico só existe porque as pessoas consomem drogas. E aí, quando um ato de violência é empreendido por traficantes, os usuários de drogas não enxergam que possuem uma "parcelinha" de culpa nesta situação e agem de forma hipócrita e medíocre. O que adianta participar de atos a favor da paz se, indiretamente, os usuários colaboram para o tráfico e, conseqüentemente, para a violência?
Por toda sua crítica tanto à sociedade, quanto à polícia e ao tráfico de drogas, “Tropa de Elite” deve ser conferido sem preconceitos, sem tapas nos olhos. Um pequeno aviso: o filme contém fortes cenas de violência e de práticas de tortura. Portanto, se você possui estômago fraco, poderá se sentir um pouco mal. Mas todos nós saímos do cinema, ao receber esta “injeção de realidade”, com uma certa angústia, pois o filme consegue fazer pensar através do chocar. Confesso que, desde os tempos de “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, não me sentia tão animada com o cinema nacional questionador.
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